Livros

Mazal Tov, de J.S. Margot, 2023

Margot é uma jovem estudante à procura de emprego. Curiosa, interessada por idiomas e pelas pessoas, a mão do destino a leva a uma casa onde vive uma família diferente de todas as que já conheceu. Judeus ortodoxos na fechada comunidade de Antuérpia, o casal Schneider aceita a jovem belga como tutora de Simon, Jacob, Elzira e Sara, mesmo sabendo que ela veste saias curtas, não acredita em Deus e namora um rapaz muçulmano refugiado do Irã. Nesse mundo complexo, ela mal imagina o quanto sua vida resultará enriquecida por surpreendentes descobertas. De Nova York a Jerusalém, Margot – liberal, inquisidora e rebelde – nos revela com humor os bastidores de uma experiência intercultural inusitada. Universal como “O violinista no telhado” e sensível como “A noviça rebelde”, Mazal Tov fala a todos os povos, de todas as crenças. Num texto enxuto e perspicaz, eis uma história que comove, provoca e congrega as pessoas, mostrando que onde os adultos levantam paredes, às vezes são os jovens quem constroem as pontes.





 

O Halo Âmbar, de Fernando Dourado Filho, 2023

Szymon Neuman é um viúvo de guerra. Com a filha de 5 anos, deixa para trás sua Budapeste natal para morar em São Paulo. No novo país, recomeçando a vida, casa-se com a pernambucana Brenda Novinsky, união de que nascerão Boris e Anita, nos anos 1950. A história poderia parar aqui. Mas esse é apenas o começo, a designação dos protagonistas, o descortino dos cenários e das circunstâncias. Os anos 1960 vão sacudir o mundo, congelado pela Guerra Fria. Mas na casa dos Neuman a temperatura é incandescente. O patriarca sonha com uma vida estável, em que nada falte aos filhos. Brenda quer um lugar ao sol para a humanidade. Hana acredita na ciência, mas perscruta a história, que engolira sua mãe num campo da Polônia. Boris volta perturbado de um programa juvenil em Israel. Numa longa corrida de recuperação, vai se revelar no mundo – China, Estados Unidos –, depois de estarrecer o Recife dos anos de chumbo. Anita, que sonha com uma sociedade socialista, não encontra resposta aos seus anseios no sionismo. Os anos 1990 trarão descendentes que, incrustados em Higienópolis, ecoam dores e incertezas. Do apartamento do Recife, Szymon e Brenda assistem, entre fascinados e perplexos, às evoluções da família e da história. Adianta querer entender as maquinações do destino? Em quantas gerações se diluem as consequências de um sumiço de guerra? Atormentado pelas mensagens que lhe chegam do soldado Shavitt, Boris é refém da clarividência. Flertando com a política desde a adolescência, Anita vive as contradições do amor incondicional pela esquerda. E Hana, quem poderia esperar que uma intelectual europeia pudesse tomar uma decisão tão surpreendente? O Halo Âmbar encerra dor e beleza, cores e temperos. Nitidamente, os personagens escreveram suas histórias à revelia da vontade do autor. Nele, o universalismo judaico é visto e vivido de várias formas.


 

Quase Kasher, de J.S. Margot, 2024

“Quase Kasher” nasceu clássico. Ambientado na Antuérpia da pandemia, o jornalismo literário capta aqui tons poucas vezes retratados. Até dezembro de 2019, a autora desfrutava do auge do prestígio literário, depois do sucesso de “Mazal Tov” (publicado pela AzuCo em 2023). Com a agenda tomada por lançamentos e conferências, ela se tornara a escritora preferida da Rainha Mathilde. Mas aí vem 2020. O lockdown castiga a vida judaica enormemente. No Distrito dos Diamantes, as sinagogas estão fechadas. Nunca se vira isso desde os anos 1940. Cancelam-se festas. Não há quórum (minian) para orar. As exceções ficam restritas aos funerais. Os judeus ortodoxos se insurgem contra os protocolos. Para eles, a morte é prerrogativa de Hashem, do Altíssimo. Como perpetuar a tradição do Shabat sem a família em volta da mesa? Para a autora, um drama se soma ao outro. O marido é diagnosticado com câncer. E se pegar covid? Há dor, mas há esperança. Dan Zollmann, fotógrafo e autista, ajuda-os como pode. Confinado em si mesmo desde sempre, ele entende de isolamento. As amigas Naomi e Dahlia mimam o casal com guloseimas. Os rabinos oram por Martinus. Por trás da calma, tudo é belo e intenso. “Quase Kasher” é um primor de literatura jornalística. Traduzido diretamente do neerlandês, são 376 páginas de uma viagem a um mundo cheio de tabus e superstições, mas também de beleza e humanismo, como já não imaginávamos existir.



 

A Viagem imóvel, de Fernando Dourado Filho, 2024

Recém saído de um casamento, o autor vai passar o réveillon na Espanha. O ano de 2020 começa com uma festa no átrio da catedral de Girona. Pronto para a retomada da vida, as agruras da meia idade não o desanimam a fazer o que mais gosta. Enquanto isso, chegam da China notícias sobre um vírus que ameaça desembarcar na Europa. Onde passar a chuva? Vivendo este impasse na Hungria, ele escolhe Paris, a melhor opção para as semanas em que o medo dominaria o mundo. Semanas? Um ano mais tarde, o autor ainda estará lá. De trotamundo assumido, virou morador do Vème arrondissement, no coração da Rive Gauche. É disso que trata este riquíssimo “A Viagem Imóvel”. Numa Paris sitiada pelo inimigo invisível, o imobilismo planetário não o impede de sonhar, divagar e rememorar uma vida trepidante que, como todas, também conheceu equívocos – nem sempre divertidos. Com a geografia reconfigurada, antenado nos boletins que informam pari passu a evolução da pandemia, nada o impede de nos levar a um casamento na Índia, a noites de bebedeira em Moscou e a tensas reuniões de negócios em Londres. Memorialismo e travel writing se fundem aqui num achado único. Mais do que um livro, “A Viagem Imóvel” é uma experiência transcendente.



 

E Madureira Quase Chorou, de Betty Steinberg, 2023

Eis um livro que foge da lágrima fácil. Isso é um grande mérito. Não foram poucos os romances que, pretendendo narrar fatos do Holocausto, sucumbiram à adjetivação profusa e à emoção desmedida, o que se explica pela natureza dos fatos. Ocorre que, assim fazendo, o texto resulta prejudicado porque a sobriedade é uma virtude na hora de contar uma história -, por chocantes que sejam os fatos. A carioca Betty Steinberg, residente nos Estados Unidos há 40 anos, quis trazer ao público um drama familiar que a marcou de várias formas. Numa prosa ritmada e pulsante, ela se pergunta de várias formas se uma parte do coração paterno não teria ficado nas florestas de bétulas de Sydlowiec, na Polônia? Será que um amor de juventude frustrado pela Guerra o levou a guardar uma mágoa do melhor amigo, que casou com sua antiga namorada? E a esposa dele, a mãe da narradora, como acompanhou, até o fim da vida, esse drama permeado por encontros dos dois casais no Rio de Janeiro e em Paris? E Madureira quase chorou traz os sabores de Varsóvia antes da Guerra, matizado pela irreverência e picardia do iídiche. Traz ecos vívidos do Rio de Janeiro nos anos 1940-50 e de um judaísmo impregnado pelo ideal socialista dos velhos militantes do Bund. Eis um livro lavrado com fina sensibilidade e fino apuro.


 

A maravilhosa bicharada da Vila dos Gauleses, de Samuel Szwarc, 2024

“A maravilhosa bicharada da Vila dos Gauleses” reúne as lembranças do publicitário Samuel Szwarc sobre uma das mais deliciosas passagens de sua longa vida: o sítio de Ibiúna, à beira da represa, em São Paulo, onde ele se refugiou por quase 40 anos com a esposa Hannelore, a Hanny. Sempre ao lado dela, era lá que o autor recebia a família e os amigos nos fins de semana, férias e feriados – fosse na piscina ou no aconchego da sala de jantar, batizada de “Le bistro rouge”. A verdade é que tudo na propriedade foi feito com muito esmero e pensado nos detalhes com um apuro que poderíamos chamar de europeu. Isso só já daria bom caldo para que Samuel escrevesse suas aclamadas crônicas. Mas aqui ele foi muito além. O universo de que trata o livro fala menos de gente de carne e osso e mais, muito mais, dos bichinhos que o casal criou, cada um com sua história e sua elaborada identidade. Já de cara, o leitor será arrebatado por Rui, o cão gente boa, o primeiro cachorro de companhia da vida do narrador. De mão em mão, ou melhor, de pata em pata, chegaremos a Jordan, o labrador, o temporão de uma dinastia de que constaram mais de 20 bichos. Assim era a Vila dos Gauleses, epicentro de um mundo ruidoso que certamente refinou o olhar humanista de um homem que sempre gostou de ler, conversar e observar. Em Ibiúna, tudo foi como se lá os amigos fossem mais amigos, a família mais família – a ponto de todos cultivarem até hoje tantas saudades. Assim, não foi fácil fazer com que Samuel escrevesse sobre a amada bicharada. Viva na sua imaginação, ele se emocionava toda vez que ia escrever sobre cada um dos membros da família. E o que é pior: o pouco que fazia, ele não podia compartilhar com os filhos ou com Hanny porque a emoção contagiava a todos. Foi assim que a AzuCo, sem que Samuel soubesse, encaminhou os originais ao ilustrador pernambucano Ricardo da Cunha Melo que, depois de muitas de tentativas, chegou ao formato mais fidedigno de cada personagem. Enxugadas as lágrimas, ele arrematou a história e, numa prosa acessível e lírica, devolveu o livro dizendo: “A história está pronta para ir ao mundo. Escrever para mim foi terapêutico. Agora chegou a hora de contar essas histórias às crianças.” Ainda assim, este livro se destina a todas as idades, embora , por categorização, priorize o público infanto-juvenil.


 

Escritoras Israelenses de A a Z, de Leniza Kautz Menda

A escritora gaúcha Leniza Kautz Menda apresenta neste livro a obra de sua vida. Leitora incondicional de Amos Oz, David Grossman e Aharon Appelfeld, voluntária de kibutz nos anos 1970, os ingredientes de beleza e sensualidade de Israel jamais a deixaram. Mas algo estava faltando à gestão deste legado. Onde ficavam as mulheres? Num tour de force hercúleo, ela se debruçou sobre 29 escritoras que fazem do hebraico seu instrumento de trabalho, e consolidou uma coletânea saborosa e panorâmica em que o leitor pode curtir um menu degustação do que elas produziram de melhor. Depois desta obra, a tendência é que as pessoas procurem mais e mais os livros referidos – a imensa maioria deles ainda não traduzida para o português -, o que engajará mais editoras a perquirir este caminho, como fez a Todavia, que já lançou três títulos da premiada Ayelet Gundar-Goshen, a Companhia das Letras, a Fapesp, entre outras.
Para a consecução do trabalho, Leniza convidou nada menos do que 9 resenhistas de primeira grandeza cuja generosidade se estampa em artigos que enriquecem a abordagem a cada autora. Neste livro, ademais da organizadora, temos uma plêiade de autores do quilate de Laura Trachtenberg Hauser, Marcia Ivana de Lima e Silva, Moacir Amâncio, Vivian H. Schlesinger, Marcia Dreizik, Luiz Paulo Faccioli, Nurit Gil, Gustavo Melo Czekster e Ida Bochernitsan. Graças a eles, o leitor conhecerá os fascinantes escaninhos culturais de Israel, como poucas vezes foram vistos. A visão de mosaico fica explícita nos flashes sobre as levas de imigração da Romênia, da Lituânia, do Iêmen, do Marrocos e da Polônia. Fortemente interessada no potencial irrefreável da literatura gaúcha contemporânea, em particular na sua vertente judaica, a AzuCo se orgulha de oferecer ao mercado esta coletânea.
Se o leitor ainda não conhecia, prepare-se para descobrir a literatura hebraica pelas mãos de Ayelet Gundar-Goshen, Alona Kimhi, Ayelet Tsabari, Ayelet Waldman, Batya Gur, Dorit Rabinyan, Emuna Elon, Gail Hareven, Judith Katzir, Leigh Bardugo, Lihi Lapid, Naomi Ragen, Orly Castel-Bloom, Rina Frank, Ronit Matalon, Rutu Modan, Sara Shilo, Sarit Yishai Levi, Shani Boianjiu, Shifra Horn, Shulamit Lapid, Savyon Liebrecht, Tal Nitzán, Yael Hedaya, Yael Neeman, Yaara Sheari, Yochi Brandes, Yona Wallach e Zeruya Shalev.


 

As Vinhas do Reno, de Claus Koch, 2022

As vinhas do Reno condensam as reminiscências de um jovem casal brasileiro que resolve se lançar à descoberta do mundo. Saturados com o panorama que lhes parecia sem atrativos na São Paulo no final dos anos 1970, optaram por viver na Alemanha, terra dos ancestrais de Claus, onde construíram a vida do zero. O mais fascinante desta experiência, para além da prosa cirúrgica do autor, é perceber de perto as engrenagens que fizeram da Alemanha um colosso econômico e social sobre as ruínas da Segunda Guerra. Tão interessante quanto essa perspectiva é a de perceber como o Brasil é visto na ótica de quem nunca nos abandonou completamente. Para enriquecer este quadro, Claus se aprofunda dentro dos limites de um texto não acadêmico nos aspectos mais determinantes do idioma alemão, sua consolidação, o papel da tradução da bíblia por Lutero e o advento de uma cultura única, porém extremamente diversificada, em que se falam dialetos distintos em aldeias vizinhas.O leitor deste livro poderá entender a cultura alemã a partir da vida doméstica de uma família cujos laços com o país hospedeiro se tornaram definitivo. As vinhas do Reno são um testemunho de admiração pela Alemanha. E um libelo mal camuflado de um amor que ficou a meio caminho pelo Brasil.Este livro é uma advertência aos países que não souberam abrigar os anseios de sua juventude talentosa.




 

Qualquer sensação súbita, de Fernando Dourado Filho, 2021

Fernando Dourado Filho (Garanhuns, PE – 1958) trouxe da adolescência no Recife o gosto pelas viagens. Nada o encantava tanto quanto acompanhar o movimento diário do porto. Daí vieram temporadas na Alemanha, França e Inglaterra até que a vida profissional o levou a todos os continentes. Morador de São Paulo há 40 anos, considera que não verá mais o mundo que ajudou a construir. “Minha vida foi fazer do encontro uma arte. Hoje essa agenda passa por um realinhamento. Apesar de gostar de escrever, não me agrada trabalhar longe das pessoas. Sempre gostei de explorar lugares remotos, de atravessar fronteiras secas. Depois de 2020, a criação literária se tornou uma razão de viver. Fiquei um ano em Paris, lutando para manter o melhor da memória. Nunca a vida foi tão frágil.” Especialista em negociação com culturas estrangeiras, fluente em 6 idiomas, em 1976 trabalhou como voluntário num kibutz. “Daqueles meses na Galileia até hoje, Israel não saiu mais de mim.” Já sonhou em envelhecer à beira do Mediterrâneo. Hoje só quer ter saúde ao lado de quem ama. “O lugar já não conta. Quem diria? O que restou do menino que sonhava em fugir num cargueiro de banana?”


 

A luz mutante da meia-estação, de Fernando Dourado Filho, 2025

“A Luz Mutante da Meia-Estação” é uma imersão nas divagações em primeira pessoa do narrador. São recortes memorialísticos que começam no dia em que o autor celebra seus 66 anos: “Regalei-me, solitário, com uma chuleta colossal numa calçada de esquina da rua da Consolação.” Vivendo uma espécie de inferno astral na nova idade, ele viaja com uma amiga para a Europa. Na Península Ibérica, entre compromissos literários na Póvoa de Varzim e em Madrid, ele vê se acumularem no horizonte os dias de turbulência que o marcarão na volta ao Brasil. A primavera lhe traz sensações que o acompanharão pelo resto da vida – quanto quer que ela venha a durar. No ano seguinte, em pleno outono alemão, o autor retoma o fio narrativo da meia-estação passada. Entre as folhas mortas de Szczecin, na Polônia, e as margens do Reno, perto de Frankfurt, ele revive os momentos que passou ali mesmo com Sara, a amiga de uma vida, recém-falecida. No metrô de Paris, dias mais tarde, sente uma fragilidade que nunca experimentara na estação Montparnasse. O que estaria acontecendo? Depois dos consagrados “Qualquer Sensação Súbita” (AzuCo, 2023); “O Halo Âmbar” (AzuCo, 2024) e “A Viagem Imóvel” (AzuCo, 2025), o autor reaparece com outra surpresa. Em “A Luz Mutante da Meia-Estação”, o que se vê é um escritor plural que tem um compromisso visceral com a escrita. Neste seu último livro, há poesia, humor, reflexão e, sobretudo, uma linguagem bem cuidada que leva o leitor a momentos de reencontro consigo próprio e do mais puro prazer. “Dias mais tarde, deixamos o carro em Poznan e tomamos o trem para Berlim. No estacionamento, chassidim às centenas se acomodavam dentro das vans, ajeitando com cuidado caixas de chapéus no porta-malas e nitidamente felizes por estarem ali a caminho de algum evento. (…) No trem para Berlim, mal passamos a fronteira, sua voz soou pausada. ´”A Polônia agora ficou para trás. Os meus filhos já a conhecem. Se voltar um dia, vai ser com uma netinha e olhe lá. Valeu ter vindo, mas vou precisar de tempo para processar tudo isso. “Então eu abri o computador e logo você ressonava, como se tivesse cumprido uma missão para a qual vinha se preparando há tempo.” Este livro, amigo leitor, é puro deleite.


 

Do camelo ao Rolls-Royce, de Patricia Kaufmann

Bons livros, como os bons amores, também podem nascer ao sabor do acaso. Do camelo ao Rolls Royce começou num encontro fortuito numa padaria paulistana. Entre um café e outro, a artista Patrícia Kaufmann falou sobre sua partida iminente para o Qatar, onde passa metade do ano ao lado do marido, o treinador de goleiros Wisner, brasileiro radicado há mais de dez anos na área do Golfo, um dos desportistas mais credenciados no seu ramo profissional. A nosso pedido, Patrícia deu umas pinceladas sobre o palco da Copa do Mundo, mas ali ficou claro que, mais do que uma turista, ela tinha alma de viajante. “Faça um livrinho sobre sua relação com o Emirado”, provocamos. Depois de ressalvas rapidamente superadas, ela aceitou. Imaginamos que o Qatar seja hoje – goste-se ou não do estilo e da estética local – uma das vedetes da fotogenia mundial. Sede do primeiro grande evento global do pós-pandemia, Doha criou um novo patamar de tensão entre a tradição e a modernidade, o bom gosto e a exorbitância, a vontade de exibir e a necessidade de esconder. Epítome das diferenças entre Ocidente e Oriente, o texto dela nos encantou como editores. Numa prosa fluída que vai do contido ao exuberante, Patrícia abriu sobre a mesa uma paleta de cores da mais fina interculturalidade. Avessa a intelectualismos, o livro começa com uma cena de road movie à sombra das torres metálicas de Richard Serra. E termina com um olhar saudoso sobre a vastidão do deserto em que ela pensa no seu pai, oficial da Aeronáutica precocemente falecido. Nesse contexto, a autora alterna traços memorialísticos de sua vida em Guaratinguetá com idas à praia de Al-Khor, onde confabula com uma de suas poucas amigas locais. Desobrigada de buscar explicações para tudo, aqui vamos saber como a religiosidade integra o dia a dia das pessoas. Como o dress code se aplica distintamente a locais e visitantes. Como as temperaturas inclementes regem o cotidiano. E que expectativas têm os mandatários com respeito ao day after da Copa do Mundo. Como um evento global vai mudar a forma de ser dos qataris, perplexos diante de uma gama de nacionalidades nunca vista em tão pouco tempo? Mais do que fatos, há pensamentos. Como viajante versada, Patrícia parece atender à máxima de que viaja para se conhecer, e não para fotografar monumentos. Depois deste livro, você nunca mais vai ver aquela parte do mundo do mesmo jeito. Salam Aleikum.


 

Rua Fuzhou, Xangai, de Carmen Lícia Palazzo, 2022

Rua Fuzhou, Xangai é um tributo de amor a uma civilização muito sujeita a suscitar emoções contraditórias. Como toda potência imperial -, segundo alguns, medularmente hegemônica – certo é que ninguém fica indiferente à China. Carmen Lícia Palazzo não foi exceção a essa regra de aplicação universal. Viajante de ofício desde a juventude, chegou ao Império do Meio tão desarmada quanto pode chegar uma ocidental investida, ainda que indiretamente da missão de observar, aprender para, mais adiante, traduzir seus sentimentos num livro como este que temos o prazer de publicar. A China para esta fina observadora de pessoas e costumes é, sobretudo, o país do povo, das ruas, dos aromas e das vozes que a acompanharam a muitas cidades, evitando sempre que possível aviões e roteiros oficiais. São inúmeros os episódios que retratam essa abertura para o aprendizado e para o dar e receber indispensáveis a experiência real. Esforçada aluna de mandarim, Carmen Lícia se lançou desde o primeiro momento a descobertas autorais de terreno como no lindo episódio em que se acerca de profissionais para cunhar o carimbo com seu nome. Uma das maiores especialistas brasileiras na rota da seda, deslinda trechos alusivos a uma das maiores aventuras mercantis da humanidade cujos ecos vertebralizam a diplomacia e a economia da China de hoje. Não haverá melhor forma de captar as entrelinhas do que entregar-se à leitura deste texto que encantará tanto viajantes experientes quanto aqueles que são acordados em navegar pelos meandros das mais antigas das civilizações. Xièxiè, Carmen.


 

Relações, o quê?, de Samuel Szwarc, 2026

Em sua autobiografia fascinante “Relações, o quê?”, Samuel Szwarc narra com leveza, humor e precisão histórica sua trajetória como um dos maiores pioneiros das Relações Públicas, Publicidade e Marketing no Brasil. Carioca radicado em São Paulo, Szwarc detalha seu início brilhante no icônico Jornal do Brasil nos anos 60 e sua transição triunfante para o universo corporativo no Grupo LTB, onde participou ativamente do lançamento da lendária Enciclopédia Barsa.

O autor abre as cortinas de capítulos que mudaram a história do país, como seus quase 20 anos na liderança da Brinquedos Estrela. Lá, ele revolucionou o mercado nacional ao introduzir o merchandising, combater a sazonalidade e realizar um feito histórico: recriou e consolidou o Dia das Crianças como uma das datas mais importantes do calendário e do varejo brasileiro. Sua genialidade também deixou marcas profundas no terceiro setor, com uma atuação decisiva no Hospital Israelita Albert Einstein, onde liderou campanhas históricas e inovadoras de fundraising.

Com prefácio de Flavio Corrêa (Faveco) e reflexões indispensáveis sobre a ética e a evolução do Marketing, a obra é um registro valioso e inspirador. Um verdadeiro manual prático que une memórias apaixonantes aos grandes marcos do desenvolvimento institucional do país.

A quem se destina: Uma leitura imperdível para estudantes, comunicadores e empreendedores que buscam dominar as estratégias de grandes marcas e entender como construir uma reputação indestrutível no mercado.


 

Version 1.0.0

O boiadeiro que tentou devolver o Brasil a Portugal, de Fernando Dourado Filho, 2026

O pecuarista Agenor, nordestino de Arcoverde, Pernambuco, resolve escrever uma carta a um homem que admira. O destinatário é o Presidente de Portugal. Vencendo a timidez natural dos que tiveram pouca instrução, ele propõe que Lisboa aceite de volta oBrasil, cuja experiência como nação independente ele considera um fracasso. Às vezes coloquial e irreverente, escreve sobre a própria família, a solidão da velhice, os amores, o mundo de hoje, a política e, em especial, sobre o Portugal cujo futuroinveja, e o Brasil que se esfuma em reminiscências, todas elas alinhavadas em micro histórias. Falar de distopia para Agenor seria um sacrilégio, visto que enxerga a si próprio como um resistente. Eis um relato pulsante sobre os tempos que vivem nossos países e o mundo, na ótica de um valente do bem, nascido para ousar. O boiadeiro que tentou devolver o Brasil a Portugal é um lançamento da AzuCo como contribuição literária original para o debate sobre o Bicentenário da Independência do Brasil emuito além. Pela mesma editora, o autor publicou o livro de contos judaicos Qualquer sensação súbita e o relato de viagens Ukrayina.


 

Passos perderam possibilidades peregrinas, de Evandro Affonso Ferreira, 2023

Rara vez uma editora iniciante tem o privilégio de oferecer ao seu público ainda em formação um livro que já nasce clássico. Evandro descobriu as letras depois dos cinquenta anos – tem 78 hoje – e, como não é raro nos amores tardios, ele chegou para ficar, o que se traduz numa dedicação exclusiva à literatura. Isso não impede que Evandro seja uma pessoa sedenta por informação e que, ao seu modo, busque diuturnamente nas conversas nos cafés os elementos que moldam esse mundo turvo, não raro sombrio e intolerante, que tomou forma em todos os continentes, cada qual à sua maneira – em especial no Brasil, realidade que nos afeta frontalmente. Para quem o conhece, sabe que mais cedo ou mais tarde tudo desaguará em textos primorosos, cobiçados por um seleto grupo de aficionados. Evandro Affonso Ferreira, mineiro de Araxá, um dos maiores escritores brasileiros deste século, é ganhador de dois prêmios APCA, um Machado de Assis, um Biblioteca Nacional, um Bravo! e dos Prêmios Jabuti. Segundo o tradutor Irineu Franco Perpétuo, trata-se de um autor para quem “tudo é linguagem, mesmo quando ele diz não ser. (…) Ele continua a moldar cada frase com apuro de ourives, buscando a palavra justa que se encaixe na cadência inequivocamente musical de seu estilo.” Em alusão poética ao amigo José Paulo Paes, “tradutor de Laurence Sterne a Kazantzakis, passando por Kaváfis, Ovídio, Aretino, Auden, Paul Éluard, Willa Carther e Dino Buzzatti”, diz Irineu: “Evandro agora toca nessa tragédia cada vez mais pungente em nossa era de solidão e incomunicabilidade, de apartamentos minúsculos que são, a um só tempo moradia e local de trabalho: o falecimento de um gato.


 

Nas trilhas dos Alpes, de Anita Renaud Martin

Se há um país que não foi talhado para congregar unanimidades, este é a Suíça. Para uns, é a quintessência da beleza e da civilidade. Nas encostas verdejantes das montanhas, as vaquinhas se locomovem lentamente, reforçando a ideia de que o tempo nos vales não passa. Ao som dos badalos, elas se alimentam com a grama que, mais tarde, resultará na excelência do leite de seus chocolates e na singularidade dos queijos de furinhos. Com a precisão dos melhores relógios do mundo, a Helvécia acena com paz e anonimato para todos aqueles – cineastas, tenistas, automobilistas e músicos – que prezam a vida ao abrigo da curiosidade alheia. Na Suíça, famosos ou não desfrutam do silêncio e da harmonia coletiva, e a gentileza é a cláusula pétrea desse convívio. Para outros, porém, a Suíça é um país que se esconde por trás da neutralidade política para, na surdina, branquear o dinheiro mal explicado de tiranos e estelionatários. Como achar um ponto de equilíbrio entre essas duas visões?
Foi para nos ajudar a percorrer essa zona nebulosa que a carioca Anita Renaud Martin, radicada há décadas às margens do Lago Léman, aceitou o convite da AzuCo para fazer um relato em primeira pessoa dessa longa vivência. Ao cabo de uns poucos meses, recebemos este belo Nas trilhas dos Alpes. Sem ser uma escritora de ofício, Anita desnuda com humor e argúcia as delícias do mundo que a cerca – feito de ameixas, cerejas e vinhos – e aquele que lateja para além dos muros de sua residência. Cosmopolita e experiente, ela guarda no olhar o frescor de quem está de bem com a vida. Neste livro, você vai se divertir com episódios singelos que retratam au grand complet como ele obteve o cobiçado passaporte vermelho com a cruz branca; e seu fascínio pelos museus e festivais de música, que são uma das marcas registradas do país. Anita nos presta um testemunho acurado sobre seus itinerários de montanha e como se beneficia da centralidade geográfica de Lutry.


 

Diamantes no Escuro, de Vivian Schlesinger, 2024

“Diamantes no Escuro” é a magistral coletânea da Oficina Literária de Vivian Schlesinger, uma das mais prestigiosas do Brasil. Trata-se dos melhores textos de seus alunos ao longo de 2024. É impossível destacar um só, daí porque convidamos o leitor a apreciá-los no seu conjunto e estabelecer suas preferências. É intenção da AzuCo que os autores possam alçar voos próprios mais adiante e ter seus livros publicados individualmente. Nomes como Teresa d ´Ávila, Sandra Schamas, Mira Harari, Letícia Canêdo, Heriete Takeda e Anderson Silva se somarão aos de Simone Wurzman, Monique Bahbout, Maria Inês Biojone, Jorge Ricardo, Carolina Nabarro, Camila Capellari e Ana Maria Bianchi. Eles haverão de se tornar familiares para muitos de nós. Em nenhuma coletânea como nesta você poderá aquilatar o quão interessante é o trabalho desenvolvido pelas oficinas de ponta no fomento de uma espécie de vanguarda literária.


 

Um jacaré em Paris, de Fernando Dourado Filho, 2024

Fernando Dourado Filho, o consagrado autor de “O Halo Âmbar” (AzuCo 2023) e de “O boiadeiro que tentou devolver o Brasil” a Portugal (AzuCo 2022) passou o primeiro ano da pandemia em Paris. Nas longas digressões pelas redes sociais que fazia sobre a França em pleno ‘lockdown’, uma história maluca veio à baila, no bojo da narrativa negacionista que custou tantas vidas em nosso país. Como no Brasil corria o chiste insidioso de que um dos perigos da vacina contra covid era o de transformar as pessoas em jacarés, ele aproveitou o mote e criou um casal de répteis que vive um lindo enlevo amoroso às margens do Sena. Conforme vai se revelar mais adiante, Toni era um brasileiro com comorbidades e a italiana Pietra, idem. Como o amor é eterno enquanto dura, não faltarão aventuras do casal nas águas então cristalinas do Sena. E o que vai acontecer quando passar o efeito da injeção? Num rasgo de originalidade e ousadia, Fernando desdobrou esse romance naif em 7 curtos capítulos. Para além da história, a segunda parte traz pequenas crônicas do dia-a-dia do autor no Vème Arrondissement. O corolário desse precioso livrinho são as ilustrações do cartunista Ricardo da Cunha Melo, o mesmo artista de “A maravilhosa bicharada da Vila dos Gauleses”, de Samuel Szwarc (AzuCo, 2024). Imperdível para quem ama Paris e pungente como tudo o que diz respeito ao período mais agudo da pandemia na Europa, “Um jacaré em Paris – Vida dupla na Cidade Luz” é um primor a ser guardado com carinho. Vai encantar leitores de todas as idades.


 

Ukrayina, de Fernando Dourado Filho, 2022

Ukrayina é uma colagem de impressões de Fernando Dourado Filho sobre suas viagens à Ucrânia. Focado menos na história política e social local, o autor descreve as pessoas e paisagens físicas e humanas onde se inserem. Embalado por sua invariável verve poética, a que se alterna um estilo direto pungente, o destino da Ucrânia é descrito nas suas belezas e na tragédia geopolítica que configura. Porta de entrada do Império Russo, Fernando pinta sem meios-tons como o neo-czar Putin encarou as incursões ocidentais à jóia da velha URSS. Deliberadamente lírico, Ukrayina é o primeiro livro da AzuCo no âmbito da série “Granitsa”, dedicada a viagens ao Leste da Europa.